sexta-feira, 10 de agosto de 2012

manifesto da criança que há

E se o meu trabalho quando escravo fosse também poético e humano o meu salário solidário ao som de Beethoven que não grita mais E se não empilhasse mais não carregasse mais não suportasse mais e se eu tivesse planos de ser palhaço e astronauta como Freud em seu novo bambolê e se eu pudesse ter um novo cargo na nova sessão secretaria superintendência de assuntos corriqueiros e pequenas mentirinhas e que pagasse bem pra eu comprar petecas mexericas e lençóis novos tudo orgânico e furtacor e se não precisasse mais de compras coletivas depilação revelação peeling de pólvora e se eu pudesse ter um rosto talvez um corpo talvez dançar e não ter o que revistar registrar recomendar ter uma banda de acid jazz tragar um charuto cubano vivendo de china in box e não de work in progress e não decorar o novo acordo ortográfico decorar o velho hino nacional dos parnasianos eu poderia decorar a casa com flores artificiais e comestíveis se não tivesse que empilhar emendar entulhar poderia ler sobre a idade média e seus vícios ler uma biografia desgraçada sobre Sylvia Plath e Ted Huges coitado e ler sobre a física quântica enquanto faço a lótus invertida pudesse escrever de madrugada como um poeta insone e se tivesse fome dormiria porque comer dói.




2 comentários:

deivid junio disse...

demais, demais...

Mario Correa disse...

Gostoso de ler, seu poema. Adorável construção de leveza.